Número de soteropolitanos trabalhando nas ruas dobra em um ano

Número saltou de 32 mil para 61 mil pessoas entre 2015 e 2016, segundo o IBGE. É o maior aumento entre as capitais

Em apenas um ano, saltou de 32 mil para 61 mil o número de pessoas trabalhando nas vias ou áreas públicas da capital baiana. Foi o maior aumento dentre as capitais brasileiras. Desse total, 34 mil são homens e 27 mil são mulheres. Os dados foram divulgados ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio Contínua (Pnad Contínua). 

Foi o caso de Fábio dos Santos, 23 anos. Demitido em 2015 do emprego de auxiliar de entrega, decidiu ir para a rua ganhar a vida e entrou para a estatística. Ele investiu suas economias no próprio negócio e, há seis meses, fez da parte traseira do veículo da família - um carro modelo Strada - uma espécie de hortifrúti ambulante. O negócio, em parceria com o pai, está indo bem e Fábio já chega a faturar cerca de R$ 4 mil por mês, um aumento de mais de 400% na renda, levando em consideração seu antigo salário de R$ 980.

RelacionadoBaiano fatura R$ 4 mil por mês vendendo frutas após ficar desempregado

A solução para ganhar a vida foi a mesma encontrada por Renato Costa, que era garçom e foi demitido em 2015. A partir daí, o jeito foi vender frutas em um carrinho de mão pelas ruas. Há seis meses, ele montou uma barraquinha na Av. Centenário. “Decidi abrir meu negocinho e trabalhar pra mim mesmo. Fiz isso depois que a empresa começou a cortar os funcionários e acabei entrando no corte”, conta.

O feirante pode até ter se livrado das amarguras do seu antigo emprego, mas passou a manusear uma faca de dois gumes. Se por um lado, ter se livrado do relógio de ponto foi um alívio, por outro, ser dono do seu próprio negócio também passou a ser sinônimo de preocupação, já que o seu trabalho ainda é considerado informal. “Eu acho que é mais vantagem porque a gente trabalha para os outros, ganha mal e não é valorizado. Às vezes, eles acabam não dando os benefícios que temos direito”, avalia.

O ex-garçom Renato Costa montou uma barraca de frutas na Avenida Centenário(Foto: Mauro Akin Nassor/CORREIO)

Análise dos dados
Para Mariana Viveiros, analista de Disseminação de Informações do IBGE, esse aumento no número de pessoas trabalhando nas vias públicas está ligado, sobretudo, às posições desfavoráveis que a Bahia e Salvador enfrentaram nos últimos anos, quando o estado, em 2016, ficou em primeiro lugar com a maior taxa de pessoas desocupadas do Brasil. Salvador, nesse mesmo ano, teve a maior taxa do país entre as capitais.

“A Bahia e Salvador fecharam o ano passado com maior taxa de desocupação. Nós vemos um mercado que não tem um sinal claro de recuperação. Essa é uma realidade dos centros urbanos. Você testemunha uma perda do emprego tradicional e, com isso, as pessoas passam as buscar soluções. Ter pessoas ocupando esses cargos não é, necessariamente, uma coisa ruim”, pondera a analista.

Região metropolitana
A Região Metropolitana de Salvador (RMS) também registrou um acréscimo no número de pessoas que trabalhavam nas ruas (39,3%) de 2015 para 2016, chegando a 75 mil. Para se ter ideia, toda a iniciativa privada da RMS emprega 1,5 milhão de trabalhadores. O aumento de pessoas trabalhando nas ruas foi de 21 mil pessoas a mais.

A RMS ficou em segundo lugar quanto ao aumento entre as regiões metropolitanas pesquisadas. Em termos absolutos, ficou atrás apenas da Regiões Metropolitanas de São Paulo – com aumento de 28,7 mil pessoas. Já em termos relativos, ficou abaixo de Manaus– com aumento de 40,6%. “Esses dados não são apenas de ambulantes, mas de pessoas que vão de porta em porta, que entregam panfletos, que vendem artesanato, dentre outros”, explicou a analista do IBGE.

Em casa ganhando mais
Em 2016, 6,3% dos cerca de 1,18 milhão de soteropolitanos ocupados na iniciativa privada - exceto trabalhadores domésticos -, ou 74,3 mil pessoas, trabalhavam em casa. Esse era o terceiro maior percentual entre as capitais pesquisadas, abaixo apenas de Natal (9,5%) e Belém (7,8%), e bem acima da média do país que foi de 2,8% e maior também que a média da Bahia, onde os que trabalham em casa representam 4,1% dos ocupados na iniciativa.

Os motivos que levaram o designer José Roberto Almeida, 32, a trabalhar em casa ou em qualquer lugar com uma boa conexão com a internet foram vários: desde se livrar dos aluguéis caros que pagava para manter uma sede fixa do seu negócio, até ter o privilégio de ter uma agenda flexível. Desde 2015, o designer comanda sua startup de qualquer lugar tendo em mãos um notebook ou um celular. 

A decisão não foi só para conter os gastos, mas por perceber que essa é uma tendência mundial, sobretudo entre os empreendedores digitais. “Você se livra de custo de IPTU, luz, água e passa a ter uma rotina mais organizada”, contabiliza o designer. 

O designer José Roberto Almeida agora trabalha em qualquer lugar: só precisa de um computador e um telefone (Foto: Almiro Lopes/CORREIO)

Atualmente, trabalham na startup outras quatro pessoas e todas elas cumprem com suas obrigações em casa e, eventualmente, se encontram em locais chamadas de coworking - salas que podem ser alugadas para reuniões. 

“São novas formas de inserção no mercado de trabalho. Você pode estar produzindo em qualquer lugar. Isso é uma tendência internacional que também repercute no Brasil”, explica Guillermo Etkin, coordenador de pesquisas sociais da Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI).

Mudança de vida
O valor que o designer Eduardo Argolo ganha, após passar a trabalhar de casa, por conta própria, é 280% maior do que quando ele trabalhava como diretor de arte de um jornal. Ele conta que trabalhou na empresa durante 15 anos e saiu em 2012 com o objetivo de abrir seu próprio negócio.

Em dezembro de 2015 a revista Cine Magazine, primeira e única no segmento de cinema da Bahia, foi lançada. "Quando eu saí do emprego físico, tinha o objetivo de ter uma sala própria, mas como eu não tinha certeza da viabilidade do negócio, optei por fazer o trabalho de casa para diminuir custos”, conta Argolo.

“Trabalhar de casa foi a melhor coisa que eu fiz. Eu não tinha mais perspectiva de crescimento onde trabalhava, arrisquei e consegui um bom resultado”, completa.

***

Empresa em casa será autorizada por decreto da prefeitura
Buscando incentivar o empreendedorismo na capital e reduzir a burocracia enfrentada por quem quer abrir empresas na cidade, a Prefeitura de Salvador emitirá um decreto na próxima semana permitindo a abertura de empresas em endereços residenciais. O decreto faz parte do eixo Simplifica do programa Salvador 360, lançado em maio pelo prefeito ACM Neto. “A gente viu que havia uma burocratização muito grande com relação a isso, o que fazia com que quem não precisasse de endereço físico próprio para a empresa, tivesse um ‘endereço fantasma’, o que resultava em despesa desnecessária de escritório. Na prática, o decreto permite que o endereço da empresa seja residencial”, explicou o secretário de desenvolvimento Guilherme Bellintani.

Trabalhar de casa pode parecer atrativo para muitas pessoas e vêm ganhando o gosto dos soteropolitanos. Mesmo parecendo uma oportunidade fácil, o técnico do Sebrae, Fabrício Barreto, ressalta que é importante realizar um planejamento prévio, para só assim colocar a ideia em ação. “Abrir empresas em casa é uma tendência. As pessoas estão tendo mais a iniciativa de empreender em função do momento econômico. Geralmente essas atividades começam de forma informal, mas é importante que haja um planejamento do negócio”, explicou Barreto.

Dentre as tarefas a serem desenvolvidas para quem quer começar a empreender, estão o planejamento de recursos, a definição de qual é o diferencial da mercadoria diante da concorrência através de uma análise dos produtos oferecidos, planejamento de logística de entrega do produto e de marketing, além de sempre separar as despesas da casa das do negócio, para ter noção dos gastos e da receita da empresa, entre outras.

“É importante que a pessoa procure os órgãos reguladores para buscar orientação de como lidar com o produto. Pessoas que tratam com alimento, por exemplo, é importante ir na Vigilância Sanitária, ver quais são as boas práticas sugeridas e de que forma lidar. Para quem tem o faturamento de até R$ 5 mil, é importante se legalizar enquanto Microempreendedor Individual (MEI). Para quem ganha mais, já é orientado fazer o CNPJ (Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas) da empresa.

***

Como se formalizar
Durante seu novo trabalho como feirante, Fábio dos Santos teve seus produtos apreendidos pela Secretaria Municipal de Ordem Pública (Semop), o que gerou um prejuízo de R$ 2 mil. Isso ocorreu porque o empreendedor não possui o cadastro no órgão, que o habilitaria para realizar suas vendas. Para não ter que passar pelo o que ocorreu com Fábio, os interessados em trabalhar nas vias públicas devem ir à Av. Cardeal Avelar Brandão Vilela (ao lado da Coelba) – Porto Seco Pirajá, antiga sede da Revita, portando documentos de registro, como RG, CPF, comprovante de residência e com o nome do local onde se pretende trabalhar.

A secretaria entrega uma licença para o trabalhador entre 10 a 15 dias de análise. A Semop não confirma o aumento para 61 mil pessoas trabalhando nas vias públicas. De acordo com o diretor de serviços públicos da secretaria, Adriano Silveira, existem 11 mil trabalhadores regularizados e cerca de 20 mil ainda sem a licença para trabalhar emitida pela secretaria. A Semop registrou um aumento de 40% no pedido de licenças para trabalhar nas vias públicas da capital. Além do trabalho de conscientização, Silveira atribui o crescimento na procura à crise econômica

“A Semop realiza todo um trabalho de análise de viabilidade de instalação do ambulante no local requerido. Não adianta a gente, como Semop, sair liberando licenças sem fazer análise do local e ver capacidade de ambulantes por local. Caso o local não seja liberado, a gente indica ruas ou equipamentos, como praças, feiras e mercados populares, para que essa pessoa pode trabalhar”, explicou o diretor.

Para obter e manter a licença, o trabalhador deverá pagar uma taxa entre R$ 120 e R$ 350 por mês. Existem categorias que pagam a taxa anualmente. “O valor irá variar de acordo com o equipamento. Um carrinho de lanche tem um valor diferente de uma barraca desmontável ou de uma máquina de caldo de cana, por exemplo”, explicou Silveira.

Durante a entrega da nova iluminação do bairro de Sussuarana, o prefeito ACM Neto falou sobre a pesquisa do IBGE. Ele relacionou o acréscimo no número de trabalhadores em Salvador com a crise econômica que atingiu o país. “Com a perda de empregos formais e de carteira assinada, muitos pais e mães de família tiveram que procurar as ruas para trabalhar como ambulantes. É uma forma de sobrevivência. A prefeitura convive diariamente com essa realidade. Procuramos, inclusive, ajudar na organização do trabalho dessas pessoas, porque a gente entende que elas precisam disso para sobreviver”.

 

Fonte: Correio24horas

;