Projeto reduz dependência do Bolsa Família em 65% no Baixo Sul

O agricultor Benivaldo dos Santos, 30 anos, descobriu um significado novo para a sigla PDCIS, que originalmente significa Programa de Desenvolvimento e Crescimento Integrado com Sustentabilidade. “Foi a oportunidade que eu tive de viver na terra onde eu nasci”, conta. Formado numa instituição de ensino do programa e atualmente membro de uma cooperativa, que também integra a iniciativa da Fundação Odebrecht, Benivaldo enumera conquistas em sua vida: “Hoje, eu sou dono da minha terra, tenho carro, TV por assinatura e tomo banho quente, o que é um luxo pra quem vive no campo”, ri. 

Agricultores Benivaldo dos Santos e Jailton Ribeiro são ex-alunos de projeto
Agricultores Benivaldo dos Santos e Jailton Ribeiro são ex-alunos de projeto (Foto: Marina Silva)

 Isso tudo sem contar com aspectos que dificilmente poderiam ser medidos materialmente, complementa. “A pessoa que eu sou hoje é totalmente diferente da que eu era, antes de entrar lá. Passei por uma mudança de capital, mas também por uma transformação social”, acredita o agricultor, morador de Presidente Tancredo Neves. Ele é um no universo de 12 mil pessoas, em 370 comunidades, que tiveram as vidas impactadas por ações do PDCIS no decorrer de 2017, de acordo com um relatório divulgado ontem pela Fundação Odebrecht.

A Avaliação de Impactos do PDCIS, elaborada pela JS Brasil, mostra que houve uma redução das desigualdades sociais nos 11 municípios atendidos pelo programa – Piraí do Norte, Nilo Peçanha, Ibirapitanga, Presidente Tancredo Neves, Camamu, Taperoá, Igrapiúna, Ituberá e Valença. Entre os beneficiados que tinham direito a recursos do Bolsa Família, foi registrada uma redução de 65% na dependência. 

As famílias participantes registraram aumentos médios de R$ 25 mil em suas rendas, que chegaram a R$ 40 mil, no caso dos integrantes de cooperativas agrícolas. 

Os jovens do Baixo Sul com passagem pelas instituições de ensino do programa estariam 113% mais bem preparados para enfrentar o mercado de trabalho. Na região, a taxa média de desemprego entre os jovens era de 46%. 

Entre aqueles que passaram por alguma das unidades de ensino, a média cai para 9,7%, menor até que a taxa média de desemprego no estado para trabalhadores de todas as faixas etárias, que é de 17,9%. 

Investimento social
De acordo com o relatório, em 2017, foram investidos R$ 18 milhões em projetos no Baixo Sul, R$ 14 milhões em recursos financeiros e o restante em atividades sem o despendimento de valores, como trabalhos voluntários, além do uso de imóveis e automóveis. De acordo com a JS Brasil, as atividades geraram um benefício econômico bruto de R$ 38,6 milhões para o Baixo Sul. Para cada R$ 1 investido, o retorno social foi de R$ 2,13. 

Benivaldo dos Santos credita ao PDCIS uma radical mudança em sua vida. Ex-aluno da Casa Familiar Rural (CFR) de Presidente Tancredo Neves, hoje planta banana da terra, abacaxi, mandioca, aipim, gengibre e inhame branco. Após concluir os estudos da Casa, ingressou na Coopatan. 

“Eu me sinto agraciado. Cheguei a vir morar em Salvador há muito tempo, vendia na Feira de São Joaquim, mas passava necessidade. Voltei para o interior e conheci o projeto que me permitiu viver com dignidade”, lembra. “Quando o jovem encontra oportunidades no campo não existe êxodo rural”, diz. 

A timidez, ainda presente, ganhou a companhia da determinação e da visão empreendedora, conta Benivaldo. “Hoje, eu sei que nós podemos enfrentar qualquer tipo de dificuldade, com o empreendedorismo. Se temos um desafio climático, mudamos as culturas plantadas. Sei que posso passar uma dificuldade, ter que vender meu carro hoje, que ano que vem vou conseguir comprar um melhor”, garante. 

“Antes tínhamos uma produtividade de oito toneladas de mandioca por hectare, hoje nós conseguimos 42 toneladas por hectare e não admitimos colher menos de 35”, diz. 

Impacto
Fundador e diretor da JS Brasil, Miguel Fontes explica a necessidade de se encarar a avaliação de impactos de maneira diferente de uma avaliação de resultados. “Quando a gente fala de impacto, estamos falando da transformação na realidade do jovem, no dia a dia dele, na propriedade rural, fora da escola. Estamos falando daquilo que foi modificado na realidade”, aponta. 

Fontes lembra que no ambiente de uma das instituições de ensino, chamadas de casas familiares rurais ou agroflorestal, tudo funciona bem. Para ele, é importante ir aos locais onde os jovens vivem. “No ambiente controlado, eu encontro o jovem sorridente e feliz. Mas será que o investimento trouxe mais produtividade, será que o jovem se engajou na família, será que esta família passou a depender menos de programas sociais?”, questiona.  A resposta, acredita, só com pesquisa científica séria. 

Foi realizado um estudo chamado de caso-controle. Durante um ano, foram estudadas propriedades que participaram do PDCIS e outras que não participaram. A ideia era saber o que acontece, ou não, com as propriedades quando elas participam.   

Foram visitadas 190 propriedades no último ano, segundo a JS Brasil. 

O programa visa melhorar a realidade em pontos que extrapolam questões de sala de aula, como o empoderamento das mulheres, preservação ambiental e a redução do êxodo rural, entre outros aspectos. Para tanto, foram estabelecidos indicadores relacionados à produtividade da unidade familiar, outro relacionado à vida dos jovens e um terceiro, sobre a preservação ambiental. 

Na área ambiental, os resultados apontam o aumento em cinco vezes na preocupação em realizar o cadastro de atividades rurais. Entre os participantes, diminuiu em três vezes o uso de queimadas. A preocupação com o descarte correto do lixo domiciliar é cinco vezes maior entre os participantes do programa.


Fundação Odebrecht quer otimizar resultados
Com os resultados do estudo de impacto, a Fundação Odebrecht agora pretende sistematizar a sua tecnologia social, otimizar o que está sendo bem feito e reforçar aspectos do Programa de Desenvolvimento e Crescimento Integrado com Sustentabilidade  (PDCIS) que tiveram desempenho abaixo do esperado. 

“Nós iremos buscar otimizar as ações que geraram o impacto esperado, reforçar algumas ações e passaremos a oferecer a capacitação para reaplicar a tecnologia que desenvolvemos”, diz o superintendente da Fundação Odebrecht, Fabio Wanderley. Segundo ele, 17% dos jovens que concluem o ensino fundamental em Tancredo Neves vão para o ensino médio. Destes, 25% são alunos da Casa Rural. 

Entre as prioridades estão o reforço nas ações para ex-alunos das casas rurais, o fomento à participação das mulheres em papéis de liderança e a integração com outros projetos da fundação. “Estes são os três itens que mais nos preocupam e nos quais estaremos atuando ainda este ano”, indica. 

Fábio Wanderley acredita na necessidade de sistematizar as ações para que elas possam ser replicadas em outras realidades. 

Jailton Ribeiro, ex-aluno e cooperado em Presidente Tancredo Neves, conta que a experiência de quem deixa as salas de aulas do PDCIS desperta o interesse de outras pessoas na comunidade. “Eu mesmo saí de uma realidade de pobreza. Tinha um hectare de terra antes e agora são 20 hectares”, conta. 

“Quando alguém sai da Casa Rural acaba se tornando um espelho para outros jovens, que nem imaginavam a possibilidade de ter uma vida digna no campo”, ressalta Jailton.

 

Fonte: Correio 24 horas

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