"Saiu de casa para matar", diz promotor sobre assassino de Moa

 O barbeiro Paulo Sérgio Ferreira de Santana, 36 anos, autor confesso do assassinato do mestre de capoeira Moa do Katendê, "saiu de casa para matar, com desejo de matar". A afirmação é do promotor de Justiça Davi Gallo, do Ministério Público do Estado da Bahia (MP-BA), que apresentou, nesta quinta-feira (18), denúncia contra o barbeiro.

Se a Justiça acatar a denúncia, Paulo Sérgio vai responder por homicídio e tentativa de homicídio contra o primo de Moa, que tentou defender o capoeirista e foi ferido com uma facada no braço. Conforme Davi, os crimes foram duplamente qualificados, já que teve motivação fútil e impossibilitou qualquer chance de defesa das vítimas. 

O crime aconteceu no Bar do João, na comunidade do Dique Pequeno, próximo ao Dique do Tororó. Segundo conclusão do inquérito da Polícia Civil, o homicídio aconteceu após uma briga de motivação política. Moa foi atingido por 13 facadas depois da briga, que aconteceu horas após o fim da votação de primeiro turno das eleições, no domingo (7). O promotor relata em sua denúncia que a vítima e o acusado discutiram em voz alta no bar e "agrediram-se mutuamente de forma verbal" por discordância em relação ao presidenciável Jair Bolsonaro. Moa era eleitor do PT e Paulo Sergio defendia o candidato do PSL. 

Segundo Gallo, Paulo Sérgio deu versões contraditórias em seus depoimentos à polícia e negou o teor político da confusão. Mas as oito testemunhas ouvidas e a vítima sobrevivente todas confirmaram essa versão, que é a apresentada na denúncia. Moa foi morto com 13 facadas, a maioria na região da nuca e do tórax. "Os depoimentos não deixam dúvida. O inquérito policial está perfeito, tem provas materiais e testemunhais", afirma Gallo.

O MP pede que o barbeiro vá a júri popular. "Todo atentado contra a vida que é doloso pede júri popular. Agora é aguardar a Justiça", afirma o promotor. Ele explica que como mestre Moa tinha mais de 60 anos, obrigatoriamente haverá um acréscimo de 1/3 da pena que ele receber, em caso de condenação. "Acredito que ele deve ser condenado por no mínimo 45 anos pelos dois crimes, já contando esse acréscimo", estima o promotor. "No que depender de mim, ele será condenado em júri popular, porque é um crime brutal, por um motivo torpe fútil. Ele inventou várias histórias no depoimento, direito dele, mas as histórias caem por terra nos depoimentos, que são consistentes e sem contradição", diz. 

Caso a Justiça acate a denúncia, a defesa do acusado - seja um advogado constutuído ou a Defensoria Pública - terá prazo de dez dias para se manifestar e oferecer uma defesa por escrito. "A Justiça certamente vai acatar e aí terá o prazo para dar seguimento". A denúncia ainda será complementada com o laudo do local do crime, que não está pronto, e o laudo do corpo de delito da vítima que sobreviveu. O acusado ficará preso aguardando a decisão. 

Intolerante e agressivo
Com 1,80 m de altura, voz firme, careca e de cavanhaque, o barbeiro Paulo Sérgio Ferreira de Santana, 36 anos, tinha se mudado do bairro do Nordeste de Amaralina para a localidade do Dique Pequeno, no Engenho Velho de Brotas, há cerca de dois meses.

Pai de dois filhos, foi morar em uma casa alugada ao lado da companheira, que já residia no bairro. Ele disse que não conhecia o homem que matou com 13 facadas pelas costas, o mestre de capoeira Romualdo Rosário da Costa, o Moa de Katendê, após uma discussão política. 

A delegada Milena Calmon, do Departamento de Homicídio e Proteção à Pessoa (DHPP), que investiga o crime, descreve o perfil do barbeiro como sendo de uma pessoa intolerante e agressiva. Por ser novo na região, nenhum morador mais velho o conhecia. Em depoimento à polícia, Paulo Sérgio disse que nunca tinha ouvido falar sobre o capoeirista que exercia forte influência cultural no bairro, promovendo atividades e sendo, inclusive, uma das principais lideranças do bloco de afoxé Badauê. 

Delegada Milena Calmon ouvirá vítima que sobreviveu a ataque: o primo de Mestre Moa   (Foto: Marina Silva/CORREIO)

Mas essa não foi a primeira vez que ele foi parar na delegacia. Depois de ser detido, a delegada Milena Calmon encontrou duas ocorrências envolvendo o nome do barbeiro. A primeira, de 2009, quando ele foi vítima de agressão por parte de quatro homens após uma discussão. De acordo com a delegada, à época, ele deu entrada no Hospital Geral Roberto Santos para cuidar de ferimentos. Não se sabe, no entanto, o motivo da briga, nem se ele teria provocado a confusão.

Já em 2014, o barbeiro foi acusado por um adolescente de 14 anos de ameaçá-lo com uma tesoura depois do menor pedir R$ 0,50. A vítima procurou a Delegacia de Repressão a Crimes Contra a Criança e o Adolescente (Dercca) para formalizar a denúncia. Mesmo depois do caso ser registrado, Paulo Sérgio não foi preso. O registro, explica a delegada, não apresenta muitos detalhes sobre o caso.

“No registro temos apenas: o garoto de 14 anos teria sido vítima de agressão física e verbal por parte de Paulo Sérgio. O adolescente teria pedido a quantia de R$ 0,50 para completar o valor do corte de cabelo e que isso teria irritado o autor, que passou a agredir verbalmente. O mesmo teria quebrado o seu relógio dizendo ser uma ‘peça barata’ e que ainda teria colocado uma tesoura no seu pescoço. No entanto, não diz o local onde ocorreu”, explica Milena. 

Já sobre a morte de Moa, Paulo Sérgio disse para a polícia que, antes de cometer o crime, começou a beber os primeiros copos de cerveja durante a tarde, por volta das 15h, quando o cenário político do segundo turno ainda estava sendo decidido nas urnas.

A bebedeira foi até a noite, quando resolveu ir ao Bar do João, estabelecimento que fica nas proximidades do Dique do Tororó, no bairro de Engenho Velho de Brotas. Lá, em um determinado momento, já por volta da meia-noite, o barbeiro resolveu pôr em discussão com o dono do estabelecimento as propostas do candidato do PSL, Jair Bolsonaro, segundo testemunhas que estavam no local. 

De acordo com a delegada, o barbeiro argumentava com o dono do estabelecimento que era preciso haver mudanças no Brasil, quando o capoeirista interrompeu a conversa se mostrando contrário as suas ideais.

“O que se sabe é que o crime tem relação política. A vítima teria se intrometido e, após uma rápida confusão, Paulo Sérgio foi em casa e retornou golpeando o capoeirista. Ele disse, em depoimento, que apoiava o candidato de direita”, conta Milena. 

Paulo Sérgio chegou por volta das 11h30 de segunda-feira (8) na sede do DHPP, no bairro da Pituba, ao lado de dois policiais. Ao avistar a presença da imprensa, cabisbaixo, tentou esconder o rosto utilizando uma das mãos ferida por uma faca tipo peixeira usada para cortar carne em sua casa.

Barbeiro chega escoltado por policiais na sede do DHPP, na Pituba (Foto: Marina Silva/CORREIO)

A mesma arma branca foi usada para desferir 13 golpes no Mestre Moa. Durante a sua apresentação à imprensa, o barbeiro negou as acusações. Disse não se lembrar de quantos golpes desferiu contra a vítima que, de acordo com a família, era eleitor e simpatizante do Partido dos Trabalhadores (PT).

Negou também que a motivação do crime tenha sido por política – entrando em contradição já que, durante interrogação policial, minutos antes de ser apresentado a jornalistas, ele confessou o verdadeiro motivo do homicídio à delegada.

“Eu estava conversando com o dono do bar sobre futebol quando esse senhor aí, o que veio a óbito, levantou e me chamou de negro e ‘viado’. O dono do bar viu e separou. Ele (dono do bar) viu tudo, outros (clientes) também. Já pedi desculpas à família e peço mais uma vez, momento nenhum foi a minha intenção (de matar). Me entreguei”, conta.

Ao chegar na sede do DHPP, além de apresentar a mão esquerda enfaixada com gases, o acusado estava sem camisa, vestindo um short - ainda ensanguentado - e calçando apenas uma única sandália. 

 

Fonte: Correio 24 horas

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